Artigo

Novas gerações - vamos ao encontro desses novos líderes?

No artigo anterior procuramos abrir o tema da necessidade abrirmos e ampliarmos o espaço para as novas gerações na liderança e participação denominacional. Temos ouvido de diversas regiões a carência de líderes para assumirem a liderança em muitas áreas do atendimento denominacional e até mesmo para a composição de diretorias regionais. Isso é um indicador da necessidade de despertamento e capacitação continuada de líderes a que precisamos estar bem atentos e sincronizados.

 

Aliás, precisamos ligar nosso “radar” para muitos indicadores do tempo presente para conseguirmos cumprir cabalmente nossa missão como líderes nacionais deixando sólido um legado que alimente, com contínua segurança, o cumprimento de nossa missão no atendimento de nossas Igrejas.

 

Em termos ilustrativos desse cenário das novas gerações, veja uma situação que tem ocorrido e ocorrerá com mais intensidade, e necessitamos perguntar se algo tem sido feito de forma preventiva e proativa, seja no âmbito eclesiástico, seja no denominacional. Aqui nos referimos ao cuidado do preparo de jovens que estejam ingressando no ensino superior, quando estariam sendo inseridos em um ambiente de pesquisas, mas também quando estariam expostos a crenças e ideologias diferentes das que esses jovens normalmente vivem nas Igrejas e em suas famílias, tais como ateísmo, moralidade aberta, drogas, cultura de gênero etc.

 

A pergunta oportuna seria saber como estes jovens estão sendo preparados do ponto de vista bíblico, teológico, ético cristão e até mesmo em termos culturais, para que consigam, apesar do ambiente em que estariam, serem embaixadores do reino de Deus, manifestando lealdade a Deus e Sua Palavra e, ainda, manifestando o modo de vida cristão de modo atraente, que supere as expectativas, sendo sal e luz no ambiente a que estarão vivendo no tempo da academia?

 

Diversos colegas pastores já têm demonstrado que jovens de suas Igrejas, quando vão à Faculdade, nem sempre permanecem e acabam se afastando do convívio eclesiástico, muitas vezes sem terem recebido suporte para essa nova fase de suas vidas. Em alguns casos acabam retornando ao convívio eclesiástico, quando se casam e têm filhos para que possam ter assistência na formação religiosa deles.

 

Esse cenário é algo preocupante, mas precisamos compreendê-lo para dar suporte e conseguirmos ter Igrejas fortes e saudáveis com a manutenção das diversas gerações no viver cristão e sendo testemunhas de vidas transformadas e transformadoras em seu ambiente de convivência.

 

Muito poderíamos ainda mencionar sobre o tema, mas sobra ainda uma indagação, que é o quanto nós, pastores, estamos de fato nos preparando, nos atualizando quanto às tendências culturais que estão formando novos e complexos cenários e ainda mais buscando caminhos bíblicos, para que nossos jovens possam estar preparados a serem testemunhas vivas de um Evangelho atraente e transformador?

 

Enquanto o tempo passa, tem sido possível notar que o preparo e atualização pastoral nem sempre tem sido prioridade, talvez estejamos nos envolvendo tanto com a obra de Deus que possamos estar esquecendo do Deus da obra e da missão que Ele nos tem dado em cuidar de vidas, mais do que em resultados estatísticos. Nos parece que o pragmatismo e o utilitarismo funcional tem nos tirado da frente estas prioridades.

 

Então, mãos à obra, o que poderemos fazer para que as novas gerações possam estar ao nosso lado e, em seguida, assumindo a liderança não apenas denominacional, mas, mais ainda, da vida de nossas Igrejas? Vamos a algumas sugestões:

 

• Mapear a situação - ver riscos e oportunidades. Em primeiro lugar precisamos notar que uma situação como essa pode ser classificada como uma crise, e toda crise tem dois lados - Perigo/Risco e Oportunidade. Como a palavra chinesa (no kanji) para crise nos ensina - Wei-ji: Wei - risco/perigo + ji - oportunidade. Então precisamos mapear o risco que teremos e os prejuízos se esse tema não se tornar prioridade. Em seguida desenhar um caminho para as oportunidades de aproximação às novas gerações e desenhar as futuras conquistas que elas poderão trazer para enriquecer ainda mais o cumprimento da missão denominacional e das Igrejas, quando nos referimos às novas gerações que nela estão.

 

• Conhecer e compreender as características das novas gerações. Em seguida torna-se necessário que invistamos tempo em compreendermos as diversas características, interesses, necessidades e como percebem e compreendem a vida e o mundo pelas lentes das novas gerações. Hoje há muita literatura disponível para conhecermos essas novas gerações. É possível utilizarmos a tipologia clássica sobre as gerações, então conhecermos especialmente estes detalhes sobre a Geração Y, que se refere aos nascidos a partir de 1980, que em geral, podemos dividir em dois ou três fases. Mas também a Geração Z, dos nascidos a partir de 1995.

 

• Compreender como cada geração enxerga o mundo, a vida. As novas gerações são fruto das experiências que seus pais foram vivendo ao longo do tempo, em como enfrentaram as crises de cada época, como isso foi transferido aos filhos, como puderam ensinar os filhos a enfrentar crises, frustrações, planejar o tempo, desenvolver relacionamentos e amizades. Também como preparam os filhos para a vida etc. Com isso é possível colocar as mesmas lentes e cores que as novas gerações utilizam para ver as situações da vida, os dilemas, e como buscam respostas e se buscam ou esperam que o tempo dê respostas etc. Assim poderemos ver a vida e as suas situações com o mesmo olhar.

 

• Compreender como as novas gerações estabelecem o que de fato importa. Como cada geração, em termos gerais, estabelece suas prioridades, o que de fato toma a atenção delas? Como o aspecto institucional e formal é considerado por estas novas gerações? Como daremos oportunidade para que possam dinamizar o atendimento às Igrejas e à sua própria Igreja? Como conseguirão fazer transição institucional em busca de resultados mais dinâmicos? Se a visão institucional não tem prioridade como seria possível promover o processo de decisões? Decisões colegiadas e de consenso seriam melhor que decisões juridicamente legitimadas?

 

• Compreender como cada geração busca resolver dilemas, desafios, problemas, conflitos. O item anterior nos conduz a este. Soluções de conflitos, por exemplo, demandam processos de negociações, estabelecimento do que seja de fato importante. Muitas soluções de problemas e conflitos passa pelo valor que se dá para os relacionamentos. Se um relacionamento, por exemplo, é prioritário, em geral um problema, dilema ou conflito pode não representar prioridade e não ser considerado.

 

Assim, as gerações mais adultas (X, Baby Boomer) que estão, em geral, hoje na liderança, podem valorizar mais resultados, mais o aspecto institucional, menos relacionamentos etc. E isso pode ser fator de conflito entre as gerações anteriores e as novas gerações, de modo que os ruídos de compreensão se instalam e podem impedir a abertura de espaço para diferentes abordagens nesse sentido.

 

• Abrir diálogo com as novas gerações. Escuta atenta aqui vale mais do que escuta ativa. Isto é, ouvir primeiro, para compreender, depois buscar retornar com respostas. Quando as pessoas notam que estamos atentos para ouvir, os ruídos de comunicação, de aceitação são atenuados. As novas gerações precisam ser ouvidas, pois podem ter respostas diferentes para situações que podem trazer melhores resultados dos que estamos acostumados. Quem sabe as novas “lentes” tragam novas luzes, novas percepções, novas variáveis que poderão indicar caminhos com maior resolução.

 

Existem outras providências, mas estas já podem nos ajudar na abertura do diálogo e de espaço para que as novas gerações possam participar ativamente da missão que Deus tem nos dados, seja no âmbito denominacional, seja no eclesiástico. Afinal, estas novas gerações são nossos filhos, filhos de nossas ovelhas nas Igrejas, que poderão estar na espera para serem ouvidos e oportunidade para participar. É tempo para que possamos refletir e atuar na busca desses novos caminhos. Para dialogar use rega@batistas. org 

 

Lourenço Stelio Rega

 

Imagem