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Escrito por Administrator   
Ter, 29 de Junho de 2010 16:59

Batistas na política

ALONSO GONÇALVES - Pastor da IB Memorial em Iporanga (SP)

As relações do protestantismo com a política sempre foram ambíguas. Lutero, por exemplo, não queria uma separação entre igreja e Estado. Já Calvino foi prefeito de Genebra e governou a cidade com mãos de ferro, para ele a cidade seria uma aristocracia dos eleitos de Deus. Apenas um ramo do protestantismo, o inglês naturalmente, e entre no meio dele os batistas, sempre pontuou a separação entre igreja e Estado.

Notadamente, os batistas têm na separação entre igreja e Estado um dos seus principais princípios. Ocorre que a defesa da separação entre igreja e Estado nunca significou omissão e desinteresse pela política. No Brasil os principais fatores que levaram os protestantes a se omitirem da vida política do país foi, e é, uma teologia fatalista, como o pré-milenismo. Pregou-se muito sobre o lar no céu e cantou-se muitos hinos sobre o futuro no paraíso, e a consequência de tais ações foi um completo desinteresse pelo aqui e agora, pela vida cotidiana e suas mazelas. Juntamente com o pré-milenismo há o fundamentalismo bíblico, que só se preocupou em interpretar a doutrina e enclausurar a igreja dentro dela mesma! A igreja se esqueceu de que todo ato humano é ato político e desassociou o discurso bíblico da realidade política e social do país. A igreja, quando deveria se manifestar, se calou, foi conivente e até mesmo entregou teólogos, porque tinham um discurso “subversivo” demais para a igreja, ao regime militar que tanto humilhou, torturou e matou quem era contrário à Ditadura Militar.

Foram feitas inúmeras críticas em relação à Teologia da Libertação e seu engajamento político, e logo muitos protestantes se posicionaram contra esta posição teológica por verem nela uma ligação muito forte com o Marxismo. Mais uma vez, portanto, a igreja ficou de fora de uma efetiva participação política no país.

Muito se ouve sobre a Igreja Católica e sua estreita relação com o Estado. É verdade! A própria Igreja Católica é um Estado. Mas nem por isso eles deixam de atuar politicamente no país. Recentemente, o Congresso Nacional aprovou o Projeto da Ficha Limpa, iniciativa da CNBB que arrecadou mais de um milhão de assinaturas para o projeto entrar em discussão na Câmara dos Deputados e ser aprovado, impedindo assim que diversos candidatos com processos, até mesmo criminais, se candidatassem. A Igreja Católica não apoia candidato X ou Y! Enquanto isso pentecostais e neopentecostais apoiam abertamente candidatos e fazem reuniões com candidatos para fechar número de votos! Eles detêm uma ideologia sobre o grupo que os qualifica a dizer quem deve votar em quem! Quando surgem os escândalos como o dos “sanguessugas”, o do dinheiro em cuecas, ou de deputados orando “agradecendo a Deus” a propina recebida, todos são colocados no mesmo pacote.

Estou acompanhando candidatos batistas. É salutar a iniciativa, até porque algum tempo atrás se ouvia muito nas igrejas a seguinte afirmação: “Crente não se mete em política”. Enquanto este discurso predominou, muitos entraram nas esferas do poder e não representaram de fato o povo. Porém, pelo contrário, buscaram o seu interesse em primeiro lugar, o que não é nenhuma novidade.

É legítimo pleitear uma vaga, quer a nível municipal, estadual ou federal. Uma das coisas que gosto na Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira é o item Ordem Social, que diz: “Como sal da terra e luz do mundo, o cristão tem o dever de participar em todo o esforço que tende ao bem comum da sociedade em que vive”. Uma dessas formas de buscar o bem comum da sociedade é ver a política como ferramenta. Aliás, ela é a única ferramenta de transformação numa sociedade democrática que tem no sistema de governo republicano a eleição de representantes. Portanto, nada mais natural do que servir à população com um mandato sério e competente.

O que se espera de candidatos, batistas, naturalmente, é que façam valer o voto não para defender interesses corporativos, muito menos com um discurso de que “tem que ter gente nossa lá”. Temos que ter candidatos com diferencial, não nos moldes dos pentecostais ou neopentecostais, que movem céus e terras para eleger gente que irá defender os interesses da igreja X ou Y. O candidato batista precisa ter em mente que o seu mandato irá contribuir para o avanço dos valores do Reino de Deus na sociedade e que a sua governabilidade é para todos, e nunca, em hipótese alguma, para batistas, mas para uma sociedade que está cansada de mentiras e promessas fraudulentas. Somente assim é possível justificar apoio, do contrário será mais um tentando usar da política como trampolim para o poder, para o foro privilegiado, para os benefícios enormes que a classe política desse país usufrui.

 

Última atualização em Ter, 31 de Agosto de 2010 15:11
 
 
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