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Escrito por Administrator   
Ter, 29 de Junho de 2010 17:16

Hora de votar: O fato e a versão

MACÉIAS NUNES - Pastor da IB do Leme

Eleição chegando daquele notório jeito de vale-tudo e a sentença clássica de Clausewitz - “a guerra é a continuação da política por outros meios” - volta à mente. Invertendo a mão, tem-se a algo do tipo “a política é um tipo de guerra por meios não-militares”. E apelando para um dito popular, o que aparece é o certeiro “em tempo de guerra, mentira como terra”. Não é sem razão, portanto, que sob o fogo cruzado das batalhas eleitorais, a primeira vítima seja exatamente a verdade, mesmo porque a política, mais do que a arte do possível, é a capacidade que têm certas pessoas de convencer o eleitor de que a versão é mais importante do que o fato. Ou então, para ser mais preciso, de transformar em versão auto-favorável tanto o fato que as prejudica quanto os que beneficiam o adversário. No final, para muita gente, a política nada mais é do que uma guerra de versões contrárias aos fatos - e os vencedores são aqueles que conseguem mentir com mais convicção e persistência, na linha do preceito perverso, mas realista, de Goebbels: “Uma mentira repetida muitas vezes, acaba transformando-se em verdade”.

O eleitor precavido não vai logo acreditando na primeira versão que lhe é arremessada. Antes de tudo, ele procura o fato que a produziu. O voto é uma coisa sagrada e seu detentor não deve deixar que seja profanado por um aventureiro qualquer. No geral, a imprensa presta um serviço essencial na luta para se chegar aos fatos. Listas de políticos que votam de um ou outro modo são frequentes nos jornais e em outros veículos. Políticos que aparecem apenas em época de eleição só querem voto, deixando de manter-se disponíveis e de trabalhar pela população após a conquista do mandato. Políticos que responderam, ou respondem, a processos na Justiça precisam ser olhados com extrema cautela, ainda que ninguém de fato deva ser condenado antes de passar por um julgamento justo. O projeto Ficha Limpa é uma tentativa de depurar o processo eleitoral no Brasil e o eleitor tem a obrigação, inclusive cristã, de conhecê-lo bem.

O eleitor consciente não dá crédito nem trânsito à revoada de boatos que costuma aparecer em épocas eleitorais. Coisas do tipo “ouvi dizer” ou “comenta-se” devem ser descartadas de pronto. Reportagens acusatórias com o verbo no futuro do pretérito (“fulano estaria desviando verbas públicas”) não devem ser levadas em conta até que o tempo verbal passe para o presente ou o passado do indicativo. É preciso evitar o jogo de Sambalate: “Entre as nações se ouviu, e Gesem diz...” (Neemias 6.6). Notícias “plantadas” nos meios de comunicação, para o bem ou para o mal, merecem passar por uma filtragem rigorosa antes de serem aceitas como verdadeiras. Nem tudo o que a mídia divulga é verdade.

No Brasil de hoje, apresentam-se várias versões para o fato de que o país cresce economicamente. A primeira é a já corriqueira “nunca antes neste país”, patrocinada pelo partido no poder. Na realidade, já há algumas décadas o país vem crescendo a taxas relativamente boas. Na época do chamado “milagre brasileiro”, sob a ditadura militar, chegou a crescer 10% ao ano. Logo, crescimento econômico já houve “antes neste país”. Outra versão para o crescimento vincula-se a seus efeitos na qualidade de vida da população. Ter muito dinheiro não significa ter educação, saúde, moradia e transporte de qualidade. Quando se considera as condições de vida de uma faixa da população contada aos milhões, o Brasil ainda está longe de ser a potência econômica que uma versão conveniente procura mostrar. E quando se faz propaganda de programas sociais - tipo Bolsa Família - no sentido de que estão alcançando uma fatia sempre crescente da população, isso é um erro estratégico vinculado ao paternalismo. Projetos de ação social existem para que não precisem existir. O que deve crescer é a educação de alto padrão, a qualificação profissional e o emprego digno.

O eleitor deve estar atento também para a guerra de versões a propósito de quem é corrupto ou não no contexto político. Perfeição é uma coisa: O incorruptível Mahatma Gandhi nunca roubou um centavo de ninguém em sua carreira política. Seus muitos compromissos públicos impediram-no, contudo, de dar a devida atenção à criação de seus filhos. O José da Bíblia, puro e inatacável na vida privada, seria hoje acusado de nepotismo, por valer-se de sua posição no Governo para socorrer a família em apuros. Se o eleitor procura a pessoa perfeita, deveria votar em Jesus Cristo, mas sabe-se que ele nunca se candidatou e também nunca autorizou ninguém a usá-lo como cabo eleitoral.

Corrupção é outra coisa: Não só no Brasil, existem aos magotes os que ingressam na política com objetivos bem definidos de enriquecimento com o dinheiro público. Tem gente que dá para ver claramente que enriqueceu roubando e que se eleita ou reeleita roubará ainda mais. Quem lhe confere o mandato torna-se cúmplice. A famosa fórmula cunhada a propósito dos métodos políticos de Adhemar de Barros e seguida por tantos outros - “o rouba mas faz” - é a versão eleitoralmente (quase) correta para o fato de que é impossível fazer política ou administrar bens públicos sem se beneficiar pessoalmente disso. Este fato, contudo, não existe. O fato é que se há quem rouba mas faz, ou quem rouba e não faz, e ainda quem não rouba e não faz, há, felizmente, quem não rouba e faz. A este último é preciso procurar com dedicação. Ele existe, apesar das versões em contrário.

Outra versão em cujas malhas só caem os incautos é a da “herança maldita”. Conta-se que Nikita Kruchev, que substituiu Stálin na União Soviética, disse que todo mandatário que deixa o poder deveria entregar duas cartas fechadas a seu sucessor, a serem abertas nas duas crises iniciais de seu Governo. Na primeira, o conteúdo seria basicamente o seguinte: “Jogue toda a culpa de seus problemas nas costas de seu antecessor”. Na segunda crise, a carta diria: “Sente-se e escreva duas cartas”. Na realidade, não dá para culpar o Governo anterior por tudo. No caso brasileiro o atual Governo herdou do anterior todas as ferramentas que lhe permitem governar em condições de estabilidade econômica. O próprio Fernando Collor deu sua contribuição nesse sentido, estimulando a abertura da economia.

O eleitor precisa estar atento contra o veneno de outra versão fraudulenta: A de que a ascensão pelo voto é sinônimo de democracia. Não basta chegar ao poder pelo voto para tornar-se um democrata. O exemplo clássico é o de Hitler, que depois de tornar-se chanceler do Reich montado num caminhão de votos, mostrou a que viera. No Brasil de hoje, o eleitor que se preocupa com a questão da liberdade democrática não pode abrir mão de princípios como imprensa livre, autonomia real dos poderes, primado da lei e respeito à Constituição, entre outros. Nesse sentido, ele se esforça por confrontar com os fatos uma outra versão corrente, a de que só se pode chamar de ditadura o regime ideologicamente oposto. A política externa do Governo petista é capaz de condenar o que chama de golpe de estado em Honduras e de apoiar um regime opressor e indiscutivelmente ditatorial como o de Cuba. É capaz também de condenar a existência de arsenais nucleares no mundo e de apoiar os aiatolás do Irã que não pensam em outra coisa a não ser a em terem sua própria bomba e que já declararam sua intenção de riscar Israel do mapa.

Embora grande parte do eleitorado brasileiro tenha dificuldade em discernir entre o fato que esclarece e a versão que confunde, acabando por optar por figuras demagógicas calcadas em ideias do tipo “pai dos pobres” ou “protetor dos oprimidos”, aqueles que têm acesso a esse discernimento não podem deixar de agir de maneira compatível. Significa enxergar além dos chavões eleitoreiros que se multiplicam nessa época, procurar informar-se por intermédio de fontes variadas, analisar os fatos disponíveis e votar com o máximo de consciência possível. E orar ao Senhor no sentido de perceber sua vontade no processo. Afinal, só Ele conhece todos os fatos, inclusive os que só vão aparecer depois.

Última atualização em Qui, 01 de Julho de 2010 16:08
 
 
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